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‘Conclave’ surpreende e se destaca por dar luz aos mistérios políticos para escolha de um novo Papa

Atualizado: 24 de jan.

Apesar de ficcional, o thriller dirigido por Edward Berger nos ajuda a entender as variadas questões sobre a escolha do representante de Deus na terra



“Eu sou o que Deus me fez”


A escolha de um novo Papa ainda é um grande acontecimento para a Igreja Católica e para o mundo há séculos. O ritual arcaico e secreto determina não apenas questões políticas, como o novo Chefe de Estado do Vaticano, como também sociais, influenciando o comportamento de milhões de fiéis ao redor do planeta. Por mais que seja uma obra ficcional, Conclave consegue colocar uma luz ao assunto de uma maneira que nos deixa atônitos e instigados a descobrir como serão os desdobramentos do processo.


Após a morte do Papa, o cardeal Thomas Lawrence fica responsável por organizar o Conclave, a votação para eleger um sucessor. Quatro candidatos, com linhas diferentes de pensamentos, disputam voto a voto do Colégio de Cardeais para ser o novo Pontífice. E o que parecia ser mais uma eleição comum, se transforma em uma grande briga política e reveladora de segredos e pecados.


Com direção de Edward Berger ('Nada Novo no Front'), o filme é estrelado, de forma brilhante, por Ralph Fiennes, Stanley Tucci, John Lithgow, Sergio Castellitto e Isabella Rossellini. O elenco também é formado por Lucian Msamati, Carlos Diehz, Brian F. O'Byrne, Jacek Koman e Balkissa Maiga.



Tudo é impressionantemente bom


Para quem não conhece muito da Igreja Católica e suas tradições, o filme consegue trazer um pouco das noções básicas de como funciona a votação e a importância dela para o futuro do mundo. Pode parecer que não, mas ainda há um peso na escolha de um novo Papa, sobretudo para as ideias que ele pode defender.


Seja por renúncia ou morte, o fim de um Papado tem um significado muito importante de encerramento de ciclo, para um novo que poderá ter uma a linha conservadora ou moderna de pensamento. Lembrando que para os católicos, o Papa é o representante de Deus na Terra. É a tradução da voz divina para a humanidade e os praticantes da fé.


E um dos grandes acertos do filme é exatamente esse: conseguir nos transportar e convencer que aquilo tudo é de suma importância religiosa e como consequência, política. Ao mesmo tempo que nos coloca como observadores e detetives em uma teia cheia de mistérios.


Quando a gente assiste sem saber de nada, cada frame é uma surpresa muito positiva. A tensão se faz presente desde o primeiro minuto até o último segundo do filme, e tudo é construído para que o espectador fique atento a cada movimento dos personagens.



A trilha sonora e o som são os grandes responsáveis por criar essa tensão, que chega a ser palpável tanto dentro quanto fora da tela. É possível ouvir os pequenos e grandes barulhos, o silêncio e diferenciar cada personagem pelas canções tocadas nas cenas. O diretor repetiu a parceria com Volker Bertelmann, que produziu a trilha de Nada Novo no Front. 


O roteiro é baseado no best-seller de mesmo nome escrito por Robert Harris, em 2016. O enredo é muito interessante por mil motivos, mas o principal é fazer com que o público consiga visualizar um ritual secular da Igreja que ainda é rodeado de mistério. A história é uma crescente de acontecimentos que vai nos envolvendo à medida que as descobertas vão sendo feitas.


Outro grande acerto foi explorar o tom de humor ácido e provocativo, e até inesperado, nos diálogos. É muito bom ouvir piadas específicas e completamente contextualizadas e conscientes, independente do personagem. A risada vem sem você perceber. Outro ponto interessante é como o filme consegue fazer um contraste entre o tradicional e o moderno, a exemplo de como é engraçado ver um Cardeal com as batas enormes esvoaçantes fumando um vape.


Citado a batina, chama a atenção o ótimo trabalho da equipe de figurino em montar as vestimentas dos Cardeais para a votação. É tudo muito bonito, delicado e bem passado trazendo o tom ainda mais realismo às cenas. E as roupas conseguem brilhar ainda mais pela qualidade da fotografia. 



Stéphane Fontaine foi a responsável pelo bom trabalho no filme, que consegue traduzir o sagrado e o profano com tanta nitidez e clareza, sem medo de usar a luz e a escuridão ao seu favor para contar a história, para além dos fins estéticos. Ressaltar de perto o vermelho e o branco das vestimentas é muito bonito.



Os Cardeais são pops...


Para além dos elogios de técnicos é preciso ressaltar o ótimo trabalho do elenco. A grande surpresa talvez seja saber que eles não são realmente Cardeais, tamanha a veracidade que conseguem passar a cada cena. Até mesmo a postura de cada um é diferente e os atores não parecem ser os mesmos de trabalhos anteriores, ponto para a caracterização que deixaram eles e elas com rostos bem comuns de pessoas ligadas a Igreja.


Chama a atenção também como eles conseguiram transmitir com poucas ações e palavras toda a ambição e vaidade daqueles homens com sede de poder. Tudo nos é passado pelo olhar, nas entrelinhas, como se quisesse que você também fizesse parte do julgamento sobre eles serem bons ou não.


Mas o grande destaque do filme é Ralph Fiennes como o Cardeal Thomas Lawrence. É realmente arrebatador como ele vai nos conduzindo a cada cena e descoberta para algo novo, ele instiga e te coloca para perto, como se dissesse “vamos comigo fazer com que o Conclave seja algo justo, como o Papa e Deus designou”. A filmagem consegue traduzir a perspectiva dele, mesmo que seja ele próprio contando a história.



O ator consegue fazer com que o espectador sinta um misto de emoções em relação a Lawrence, como a certeza de que ele só está na busca pelo justo, mas ao mesmo tempo com a desconfiança de que ele é só mais um ganancioso que busca pelo poder do Papado. E tudo isso pelos pequenos gestos, troca de olhares e o silêncio. Até mesmo o choro de desespero consegue nos revelar algo. 


Os outros atores do elenco se destacam individualmente como Stanley Tucci, Lucian Msamati, Carlos Diehz e Brían F. O'Byrne, mas realmente Fiennes rouba todo o destaque para si em cada cena a ponto de todos torcerem por mais. Talvez a pessoa que chegue mais próximo de se destacar junto ao ator principal seja Isabella Rossellini, como a Irmã Agnes. 



Infelizmente por questões óbvias, e ditas no próprio filme, ela aparece pouco, mas consegue pegar os holofotes, todos apontados para os homens, para si. O humor do texto ajuda para que ela consiga brilhar e chamar a atenção nas telonas. 


Por fim, Conclave é realmente isso tudo o que andam falando e se destaca por ser um ótimo thriller, acima de tudo. Acredito que mereça ser o grande destaque do ano por conseguir juntar tudo de mais importante para se fazer um filme, para além da qualidade de direção, roteiro e atuação.


A arte não precisa ser crítica ou trazer necessariamente uma grande reflexão sobre o mundo, mas o filme nos dá sem nenhum tipo de medo. Falar sobre a Igreja Católica ainda é um tabu em 2025, e criticá-la parece ser algo simples, mas ser feito com tamanha inteligência e sutileza é de se exaltar. A certeza é que você não irá esquecer o que assistiu, principalmente pelo final surpreendente.


Veredito: 5/5


PS: Ainda não me conformo que não chamaram Anthony Hopkins para fazer uma pontinha no filme. Achei realmente que todos entendessem que ele é o nosso Papa e pode exercer qualquer outro papel eclesiástico.

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